Hoje, dia 9 de outubro, Kalle Rovanperä anunciou ao mundo que se irá retirar dos ralis no final da presente temporada.
Com apenas vinte e cinco anos e uma enorme carreira pela frente, o piloto duas vezes campeão mundial de ralis, decidiu que precisa de novos desafios, que está na altura de ampliar horizontes e vai para o mundo dos monolugares e das corridas de circuito.
Coragem é a única palavra que me ocorre para descrever esta decisão.
Coragem de abandonar uma categoria, na qual caminhava para bater todos os recordes e se tornar uma lenda viva, e entrar noutra completamente diferente em busca de novas vitórias, mas acima de tudo, de motivação e ser novamente feliz. É dar um tiro no escuro.
A carreira do Kalle no mundo dos ralis começou em muito tenra idade, atingindo a categoria máxima em 2020 com apenas vinte anos de idade. Desde então foram dezassete vitórias em provas e dois títulos mundiais, à data de hoje. Elevou muito o nível de qualidade do WRC e obrigou a concorrência a “andar da perna” para o conseguir acompanhar e tudo isto com a sua imagem icónica de uma impressionante tranquilidade ao volante, como quem está no sofá de casa a ver na televisão.
Mas desde meados de 2023 que se viam os sinais que levaram a esta decisão. A falta de motivação era evidente e cada vez menos parecia querer lá estar. A temporada parcial em 2024 seria teoricamente para recarregar as baterias, mas sempre ficou no ar a sensação que poderia ser o início do fim. Nunca mais atingiu o nível que nos mostrou nas temporadas de 2022 e 2023, e pode tudo estar ligado à falta de motivação e de interesse.
Esta temporada conseguiu o último marco que lhe faltava, que era vencer o “seu” rally, o Rally da Finlândia, uma das provas mais icónicas do WRC que por coincidência tem a sua base em Jyväskylä, a sua terra natal. A partir daqui, não há nada relevante novo a conquistar para o Kalle, seria sempre mais do mesmo.

Seria mais fácil e cómodo para o Kalle ficar no WRC, para quê mudar? Iria continuar num ambiente que lhe é muito familiar e confortável. Iria continuar a ser o rosto do campeonato, iria continuar a vencer provas e quiçá campeonatos, mas tudo isto não teria o mesmo gosto e satisfação. Já muito está documentada a dificuldade dos atletas de alta perfomance, que após conquistarem tudo, sentem falta de motivação e de um propósito para continuar.
E às vezes temos de fazer escolhas difíceis na vida e temos de escolher ser felizes. Seja a nível pessoal ou profissional, todos nós nos conseguimos relacionar com este sentimento e com este dilema.
O Kalle teve coragem e escolheu ser feliz, e a mim só me resta desejar-lhe que seja feliz. Agora temos um motivo para ver a Super Formula Japonesa em 2026, um campeonato que dizem ser bastante competitivo e com boas corridas.
O Kalle termina a carreira no WRC após seis temporadas, aos vinte e cinco anos. Com a mesmo idade em que o Sébastien Loeb estava a começar a dar os seus primeiros passos em provas internacionais e com a mesma idade em que Sébastien Ogier é campeão mundial júnior de ralis.
Obrigado Kalle!
Coragem ( co·ra·gem )
1. Firmeza de ânimo ante o perigo, os reveses, os sofrimentos. = INTREPIDEZ, OUSADIA ≠ COVARDIA
2. [Figurado] Constância, perseverança (com que se prossegue no que é difícil de conseguir).
3. Exclamação usada para animar ou incentivar (ex.: coragem, vai correr tudo bem!). = ÂNIMO


